Por muito tempo, falar em cibersegurança dentro das empresas significou basicamente falar em ferramentas: quantos firewalls estão ativos, qual o orçamento investido em proteção, quantos ataques foram bloqueados. São perguntas relevantes, mas que não respondem a uma questão mais estratégica, que deveria estar no centro das decisões de qualquer organização: o quanto ela está realmente preparada para lidar com riscos que ainda nem consegue enxergar? Uma empresa pode ter tecnologia de ponta, equipe especializada e processos de resposta a incidentes bem desenhados e, ainda assim, manter brechas relevantes em sua proteção. Isso porque maturidade cibernética não se mede pela quantidade de ferramentas contratadas ou pela ausência de incidentes registrados, e sim pela capacidade da empresa de identificar riscos, definir responsabilidades, priorizar investimentos e evoluir continuamente. Transformar essa maturidade em algo mensurável é o que permite trocar a percepção subjetiva por informação estratégica de fato.
Contar incidentes não é o mesmo que medir segurança
O primeiro passo para entender maturidade cibernética é reconhecer que ela não se resume à contagem de incidentes. Uma companhia pode passar meses sem sofrer nenhum ataque registrado e, mesmo assim, seguir vulnerável a uma crise grave. Da mesma forma, um aumento no número de incidentes detectados pode simplesmente refletir uma capacidade de detecção mais apurada, e não um cenário de risco pior. Sem indicadores que deem contexto a esses números, conclusões tiradas de dados isolados tendem a levar a decisões equivocadas dentro das organizações.
As quatro frentes que compõem a maturidade
Avaliar a maturidade de uma empresa em cibersegurança exige olhar para frentes distintas dentro da organização. A governança mede se o tema da segurança está de fato integrado às decisões de negócio, a gestão de riscos verifica se as ameaças são mapeadas para orientar prioridades, os processos avaliam se as políticas definidas saem do papel e são aplicadas na prática, e a resiliência mostra a capacidade da empresa de manter suas operações funcionando e se recuperar rapidamente de uma interrupção. Traduzir risco em indicador concreto ainda é um desafio para boa parte do mercado: de acordo com levantamento da PwC, apenas 15% dos executivos no Brasil e no mundo afirmam conseguir medir de forma significativa o impacto financeiro dos riscos cibernéticos em suas empresas.
Investimentos mais direcionados e menos dispersos
Ter esses indicadores estruturados muda a forma como o dinheiro é investido em segurança. Em vez de simplesmente ampliar o número de soluções contratadas, a empresa passa a direcionar recursos para os pontos de maior exposição, avaliando periodicamente se as medidas adotadas realmente reduziram o risco diante de um cenário de ameaças que muda constantemente. Esse acompanhamento ao longo do tempo também permite enxergar a evolução do preparo da companhia, e não apenas uma fotografia isolada de um determinado momento.
Um tema que sai da área de TI
Quando a maturidade cibernética passa a ser traduzida em indicadores claros, o assunto deixa de ser restrito à área de tecnologia e passa a integrar as discussões de liderança, finanças, operações, jurídico e recursos humanos. Isso acontece porque os riscos digitais afetam diretamente a continuidade das operações, a reputação da marca e, no limite, a própria receita da organização. Medir a maturidade cibernética é, no fundo, criar uma referência para enxergar aquilo que normalmente permanece invisível dentro da empresa. Ela não deve ser tratada como um selo definitivo ou uma nota final, mas como uma métrica de evolução contínua. Quanto mais as empresas conseguirem transformar suas capacidades em indicadores comparáveis, mais suas decisões passarão a se basear em evidências, e menos vão depender de uma falsa sensação de proteção. Em um cenário em que é impossível eliminar por completo o risco cibernético, a pergunta central deixa de ser se a empresa está segura, e passa a ser o quanto ela conhece sua própria capacidade de reagir e continuar funcionando quando for de fato colocada à prova. A análise é assinada por Fernando Dulinski, CEO da Cyber Economy Brasil, hub estratégico com foco em acelerar a maturidade cibernética no país.
Fonte: Com informações de Contábeis


